O site Edge foi criado, segundo ele mesmo, “para chegar à fronteira do conhecimento mundial, encontrar as mentes mais complexas e sofisticadas, juntá-las no mesmo ambiente e levá-las a perguntar umas para as outras as questões que estão perguntando para si mesmas”. Fundado em 1991 pelo visionário John Brockman, é o que ele tem feito desde então, com cada vez mais audiência. E nada lhe traz tanta audiência quanto as perguntas que formula para seus colaboradores todos os finais de ano. A mais recente foi “Como a internet está mudando seu modo de pensar?”. E o rol de respostas chamou atenção de muitos que não ousam – tolamente – enfrentar os longos artigos e pensatas do site, em geral escritos por cientistas com preocupações humanistas.
As respostas variaram da quase total negatividade, como o psicólogo Steven Pinker dizendo que a internet apenas o ajudou a organizar melhor os arquivos, até a exaltação quase cega, como o físico Daniel Hillis dizendo que ela criou uma rede interdependente de homens e máquinas com a importância de um Iluminismo. Na verdade, o tom otimista é predominante, pois raramente alguém diz que os contras pesam mais que os prós. As queixas se referem principalmente à enxurrada de mentiras e meias-verdades que inunda o cotidiano da web, inclusive as informações imprecisas ou superficiais da Wikipedia, ainda muito atrás das enciclopédias lançadas originalmente em papel.
Curiosamente, porém, ninguém se sente mais “disperso” do que antes. Uma explicação possível para isso é que se trata de um time de intelectuais de primeira linha, como Richard Dawkins, que lamenta o fato de que a maioria das pessoas “perde tempo” navegando atrás de bobagens. Ou seja, como sempre – desde os primeiros machados de sílex feitos pelos homens primitivos – a questão não é o que a ferramenta faz por nós, mas o que nós fazemos dela; e isso implica que os mais concentrados se saem melhor. A pergunta, no entanto, tinha outra pretensão, e não apenas saber se você ficou mais sedentário (Linda Stone), impulsivo (Brian Eno), gregário (Howard Rheingold) ou esperto (Stephen Kosslyn); era saber se o modo de pensar mudou. Uma das poucas respostas nessa linha foi a de um curador de arte, Hans Ulrich Obrist, que declarou que agora pensa mais em termos de “ambos” do que “e/ou” e “nem/não”.
Da minha parte, acho que é difícil afirmar que a internet muda o modo de pensar; há muito tempo, como observador cultural que sou, aprendi que a cabeça deve lutar para não trabalhar com dicotomias, com oposições simplistas, como é da tendência humana. Para minha profissão, que lida com pesquisa, leitura e comunicação, ela foi uma espécie de benção apenas por sua praticidade. O que eu esperava depois de 15 anos de internet comercial é que as pessoas dessem menos importância ao acúmulo de informações do que ao raciocínio conceitual; que visitassem mais sites de ideias como o Edge. Mas a maioria dos navegantes é turista, não viajante: só quer a superfície vistosa das coisas.





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